Houthis tomam cidade portuária estratégica no Iêmen e aumentam tensão em rota vital do comércio mundial
Grupo assumiu o controle de Mocha, na costa do Mar Vermelho, e avança em direção ao estreito de Bab el-Mandeb; movimentação amplia preocupação com transporte de petróleo e mercadorias entre Ásia e Europa
Houthis assumem o controle de Mocha e avançam sobre posições próximas ao estratégico estreito de Bab el-Mandeb, importante rota do comércio mundial. Os houthis assumiram nesta quinta-feira (10) o controle da cidade portuária de Mocha, no oeste do Iêmen, em um avanço militar que aumenta a pressão sobre uma das rotas marítimas mais importantes do planeta. Quatro fontes militares ligadas ao governo iemenita confirmaram a tomada da cidade à Reuters.
Mocha está localizada na costa do Mar Vermelho e sua importância vai muito além das fronteiras do Iêmen. O porto fica próximo ao estreito de Bab el-Mandeb, passagem que conecta o Mar Vermelho ao Golfo de Áden e funciona como porta de entrada para a rota marítima em direção ao Canal de Suez.
O avanço ocorre em meio a uma nova escalada do conflito entre os houthis, alinhados ao Irã, e forças do governo iemenita reconhecido internacionalmente e apoiado pela Arábia Saudita.
Controle de Mocha muda cenário no litoral
Nos últimos dias, os houthis intensificaram sua ofensiva no oeste do país. O objetivo estratégico, segundo fontes militares ouvidas pela Reuters, seria ampliar o domínio sobre a extensa costa iemenita no Mar Vermelho.
Além de Mocha, o grupo avançou contra as ilhas Hanish, também consideradas estratégicas pela localização.
As forças adversárias foram pressionadas em direção a Dhubab, cidade situada diretamente junto ao estreito de Bab el-Mandeb. A ilha de Perim, que divide os canais de navegação da passagem marítima, também ocupa posição decisiva nesse tabuleiro.
Isso significa que o controle de Mocha não representa, por si só, domínio completo sobre Bab el-Mandeb. Entretanto, aproxima os houthis de posições capazes de ampliar sua influência sobre a região.
Por que Bab el-Mandeb é tão importante?
O estreito possui apenas cerca de 29 quilômetros de largura em seu ponto mais estreito e separa o Iêmen, na Península Arábica, de Djibuti e Eritreia, no continente africano.
Navios que utilizam o Canal de Suez para transportar mercadorias entre Europa e Ásia normalmente precisam passar por Bab el-Mandeb.
A rota também é importante para o petróleo.
Dados compilados pela Reuters indicam que aproximadamente 7% da produção mundial de petróleo passou pelo estreito em junho, dimensão que ajuda a explicar a preocupação internacional com qualquer ameaça à navegação na área.
Petróleo acima de US$ 100
A escalada ocorre em um momento especialmente delicado para o mercado energético.
O petróleo Brent permanecia acima dos US$ 100 por barril nesta quinta-feira, enquanto investidores acompanhavam os riscos envolvendo simultaneamente o Mar Vermelho e o estreito de Ormuz.
A Arábia Saudita vinha utilizando seu porto de Yanbu, no Mar Vermelho, como alternativa para parte de suas exportações diante das dificuldades em Ormuz.
O problema é que um aumento da capacidade dos houthis de interferir na navegação em Bab el-Mandeb poderia pressionar justamente essa rota alternativa.
O grupo já declarou um bloqueio naval contra a Arábia Saudita.
Conflito volta a ganhar força no Iêmen
O avanço também ameaça desmontar o período de relativa redução das hostilidades iniciado depois da trégua mediada pela Organização das Nações Unidas em 2022.
O acordo reduziu significativamente os combates de grande escala, mas não produziu uma solução política definitiva para a guerra civil.
Nos últimos dias, a situação mudou rapidamente.
Os confrontos entre forças governistas e houthis voltaram a se intensificar no sudoeste do país. Reportagem anterior do Metrópoles apontou que mais de 300 pessoas, entre combatentes e civis, haviam morrido desde o início da nova escalada e que cerca de 1,8 mil famílias tinham sido deslocadas.
Arábia Saudita acompanha avanço
A ofensiva também aumenta a pressão sobre a Arábia Saudita.
O país liderou, a partir de 2015, uma intervenção militar contra os houthis depois que o grupo assumiu o controle da capital Sanaa e obrigou o governo reconhecido internacionalmente a se deslocar para o sul do Iêmen.
Nesta semana, a tensão voltou a atravessar a fronteira. Segundo autoridades sauditas, ataques houthis recentes deixaram 73 pessoas feridas no território do reino.
O Paquistão também transmitiu ao Irã uma advertência saudita para que Teerã contribuísse para conter a escalada. O governo iraniano respondeu que não controla os houthis.
Avanço pode repercutir muito além do Iêmen
A tomada de Mocha transforma uma disputa territorial dentro do Iêmen em uma questão com consequências internacionais.
Bab el-Mandeb é uma passagem essencial para navios que conectam o Oceano Índico ao Mar Vermelho e, posteriormente, ao Canal de Suez. Instabilidade prolongada pode levar empresas de navegação a buscar rotas mais longas ao redor da África, aumentando tempo e custos logísticos.
Por enquanto, porém, o tráfego não foi interrompido. Dados de rastreamento marítimo citados pela Reuters mostraram 28 navios de commodities atravessando Bab el-Mandeb, número próximo da média recente de 27.
O ponto decisivo será o próximo movimento da ofensiva.
Se os houthis ampliarem o avanço para Dhubab e outras posições próximas ao estreito, a disputa pelo litoral do Iêmen poderá adquirir peso ainda maior na segurança energética e comercial internacional.




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