Governo derruba 506 sites de apostas e monitora rede clandestina com 212 mil usuários

Força-tarefa amplia fiscalização após proibição das bets e identifica anúncios disfarçados, falsos robôs de apostas e promessas de lucro de até 260% ao mês

Agência Brasil
Governo derruba 506 sites de apostas e monitora rede clandestina com 212 mil usuários Força-tarefa federal derrubou 506 sites e identificou 43 grupos de apostas com mais de 212 mil usuários no Telegram.

Uma força-tarefa do governo federal retirou do ar 506 sites suspeitos de oferecer apostas on-line de forma irregular no Brasil. A operação também identificou 43 grupos e canais no Telegram usados para divulgar jogos e plataformas clandestinas. Juntos, esses espaços reúnem aproximadamente 212,6 mil usuários.

A fiscalização foi ampliada após a edição da medida provisória que proibiu a operação das bets no país. A iniciativa reúne o Ministério da Justiça e Segurança Pública e o Ministério da Fazenda, responsáveis por localizar plataformas, interromper acessos e impedir que novos endereços sejam utilizados para substituir os sites bloqueados.

O trabalho demonstra que a retirada formal das empresas do mercado não encerra automaticamente as apostas. Operadores irregulares passaram a procurar outros caminhos para alcançar o público, utilizando domínios recém-criados, anúncios mascarados, aplicativos, redes sociais e grupos fechados.

Segundo o Ministério da Justiça, a estratégia busca impedir que as atividades migrem para canais clandestinos ou plataformas hospedadas fora do Brasil. agenciabrasil.ebc.com.br

Anúncios continuam circulando nas redes sociais

Relatório elaborado pelo Laboratório de Operações Cibernéticas do Ministério da Justiça, o Ciberlab, revelou que propagandas relacionadas às apostas continuavam sendo exibidas em plataformas digitais.

Foram localizados anúncios em serviços da Meta, responsável pelo Facebook e Instagram, além de publicações no TikTok e aproximadamente 1,9 mil anúncios no Google.

O relatório não conseguiu determinar, em todos os casos, quais campanhas já estavam ativas antes da medida provisória e quais foram contratadas depois da proibição. A legislação concedeu prazo de dez dias para a retirada das peças que já estavam em circulação, mas proibiu imediatamente a publicação de novos anúncios.

Na Meta, o Ciberlab encontrou sete campanhas. Duas teriam começado a circular quando a medida provisória já estava em vigor. O governo solicitou que a empresa fosse notificada para retirar essas publicações.

Alguns anúncios apresentavam nomes de páginas diferentes das marcas divulgadas. Os links também direcionavam o usuário para endereços que não correspondiam à identificação apresentada na propaganda.

Para os investigadores, essa estrutura pode indicar uma tentativa de esconder o verdadeiro anunciante e dificultar a identificação do destino final do acesso. agenciabrasil.ebc.com.br

Bônus são utilizados para atrair novos apostadores

As campanhas identificadas ofereciam recompensas para quem abrisse uma conta ou convidasse outras pessoas. Entre as mensagens estavam promessas de bônus de R$ 50 e supostos ganhos de R$ 888 pela indicação de amigos.

A utilização de bônus é uma das principais estratégias para atrair novos usuários. Embora a propaganda apresente a oferta como dinheiro gratuito, normalmente o valor somente pode ser sacado depois que o cliente cumpre regras estabelecidas pela plataforma.

Essas condições podem levar o usuário a fazer diversas apostas antes de conseguir retirar qualquer quantia. Em plataformas clandestinas, o risco é ainda maior porque não existe garantia de pagamento nem estrutura regular de atendimento ao consumidor.

Quando a empresa não possui autorização, o apostador também encontra mais dificuldades para recuperar valores depositados, contestar bloqueios de contas ou denunciar manipulações.

Grupos prometiam até 260% de lucro mensal

Nos 43 grupos e canais encontrados no Telegram, a força-tarefa identificou ofertas de sistemas automatizados apresentados como capazes de prever resultados.

Os responsáveis divulgavam supostos “robôs de apostas” e prometiam retornos mensais de até 260%. Algumas publicações afirmavam que os métodos alcançavam taxas de acerto de 99,8%.

Não existe garantia técnica de que um sistema consiga oferecer esse nível permanente de acerto. As apostas digitais funcionam com probabilidades calculadas para favorecer a plataforma ao longo do tempo.

Promessas de lucro garantido, ganhos rápidos ou percentuais extraordinários devem ser tratadas como sinais de alerta. O usuário pode estar diante de publicidade enganosa, captação irregular de dinheiro ou tentativa de golpe.

A lista com os canais e grupos identificados foi encaminhada aos órgãos competentes para análise técnica e administrativa. A partir dessa avaliação, poderão ser adotadas providências contra operadores, divulgadores e responsáveis pelas estruturas de promoção.

Bloqueio precisa alcançar o dinheiro

A derrubada dos sites é uma etapa importante, mas não encerra a atividade clandestina. Uma página pode ser recriada rapidamente com outro endereço e voltar a circular por aplicativos de mensagens.

Para que a fiscalização seja efetiva, será necessário acompanhar também as formas de pagamento utilizadas pelos operadores. O bloqueio de contas, chaves Pix, carteiras digitais e outros meios de movimentação financeira pode dificultar a continuidade das plataformas ilegais.

A participação das grandes empresas de tecnologia também será decisiva. Buscadores, redes sociais e lojas de aplicativos precisam impedir que operadores proibidos comprem anúncios ou distribuam programas no território brasileiro.

O Ciberlab solicitou que as plataformas digitais desenvolvam mecanismos capazes de detectar páginas com identidade dissimulada e links mascarados. O objetivo é impedir que uma bet aparentemente retirada do ar retorne com outro nome e continue atraindo apostadores.

Surgimento de novos sites desafia fiscalização

Após a publicação da medida provisória, teriam surgido 440 novos sites de apostas sem registro no Brasil. Os dados foram apresentados pela plataforma Bet Legal, mantida pela empresa de cibersegurança Iron Security.

A ferramenta começou a acompanhar páginas irregulares em setembro. Os primeiros endereços foram detectados a partir do dia 21, quatro dias antes da publicação da medida provisória.

Embora os dados sejam provenientes de uma empresa privada ligada ao setor, eles ajudam a demonstrar a velocidade com que novos domínios podem aparecer.

Esse movimento confirma que a proibição precisa ser acompanhada por fiscalização permanente. Sem cooperação entre governo, bancos, instituições de pagamento, provedores de internet e empresas de tecnologia, os operadores clandestinos podem apenas mudar de endereço.

Usuários precisam desconfiar de links privados

O governo recomenda atenção redobrada com convites enviados por aplicativos de mensagens. Links temporários, promessas de lucro garantido, bônus elevados e ausência de identificação empresarial estão entre os principais sinais de risco.

Plataformas clandestinas podem coletar documentos, dados bancários, números de telefone e informações pessoais. Além da perda financeira com as apostas, os usuários ficam expostos a fraudes, clonagem de contas e utilização indevida de identidade.

A divulgação feita por influenciadores ou administradores de grupos também não torna a plataforma confiável. Em muitos casos, quem promove o serviço recebe comissão pelos depósitos e pelas perdas dos usuários indicados.

Por isso, publicações que apresentam apostas como fonte de renda ou investimento precisam ser encaradas com desconfiança.

Combate às bets entra na agenda política

A proibição das apostas on-line provocou reações de empresas, influenciadores e clubes de futebol que possuem contratos de patrocínio com o setor.

Enquanto os defensores das bets argumentam que a proibição pode fortalecer o mercado clandestino, o governo sustenta que os danos econômicos e sociais justificam a adoção de medidas mais rígidas.

O desafio das autoridades será demonstrar que o bloqueio pode impedir a atuação ilegal sem deixar os consumidores abandonados. Pessoas que enfrentam dependência também precisam encontrar atendimento psicológico e orientação financeira.

A retirada de 506 sites representa a primeira demonstração prática da nova política. O resultado definitivo, entretanto, dependerá da capacidade do Estado de impedir que essas operações simplesmente migrem para outros domínios, aplicativos ou grupos privados.

Mais do que derrubar páginas, o governo precisará desarticular a estrutura financeira e publicitária que mantém as apostas clandestinas funcionando.




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