Fé nas urnas | Quando acreditar em Deus passa a pesar na escolha de um candidato

Pesquisa que aponta a importância da crença religiosa para o eleitor expõe a força da fé no Brasil, mas também exige uma discussão sobre os limites entre convicção, política e uso eleitoral da religião

Agência Brasil
Fé nas urnas | Quando acreditar em Deus passa a pesar na escolha de um candidato Pesquisa aponta que 81% dos brasileiros consideram fundamental que candidatos acreditem em Deus. O dado mostra a força da fé nas eleições, mas levanta uma questão: crença religiosa deve ser critério para escolher quem governa?

Um dado chama atenção no início da corrida eleitoral de 2026: segundo a pesquisa divulgada pela Agência Brasil e realizada no âmbito da Universidade Federal Fluminense (UFF), 81% dos brasileiros consideram fundamental que um candidato acredite em Deus.

O percentual é expressivo demais para ser tratado apenas como uma curiosidade estatística. Ele ajuda a compreender algo profundamente presente na sociedade brasileira: para milhões de pessoas, política não é avaliada somente por indicadores econômicos, obras ou programas de governo. Valores pessoais também entram na urna.

E a fé está entre eles.

O brasileiro não separa completamente valores pessoais e voto

É perfeitamente compreensível que um eleitor procure em seus representantes características semelhantes às que considera importantes para sua própria vida.

Para uma pessoa religiosa, saber como um candidato enxerga Deus, família, responsabilidade, solidariedade e respeito ao próximo pode contribuir para formar uma percepção sobre seu caráter.

A pesquisa ganha ainda mais relevância quando observamos a renda.

Entre brasileiros que recebem até um salário mínimo, o percentual dos que consideram fundamental que um candidato acredite em Deus chega a 89%, segundo os dados divulgados.

Isso mostra que a dimensão religiosa permanece particularmente presente justamente entre parcelas da população que convivem mais diretamente com problemas sociais e econômicos.

Mas existe uma linha que não deveria ser ultrapassada.

Acreditar em Deus não é certificado de bom governante

A fé pode revelar valores individuais. Não pode funcionar como atestado automático de competência ou honestidade.

Um candidato pode professar publicamente sua fé e administrar mal.

Pode frequentar igrejas e descumprir compromissos públicos.

Pode citar a Bíblia durante uma campanha e, posteriormente, adotar comportamentos incompatíveis com aquilo que pregava.

Da mesma maneira, um cidadão que não professe determinada religião não pode ser automaticamente considerado menos ético ou menos capacitado para exercer uma função pública.

Esse talvez seja o ponto mais importante que a pesquisa coloca diante do eleitor.

Fé e competência precisam ser avaliadas separadamente.

Deus não deveria virar ferramenta eleitoral

Quanto maior a importância da religião para o eleitorado, maior também será a tentação das campanhas de utilizar símbolos e discursos religiosos como estratégia política.

É nesse momento que o eleitor precisa aumentar seu nível de exigência.

A pergunta não deve ser apenas:

“Esse candidato fala de Deus?”

É necessário perguntar também:

Como ele administra recursos públicos?

Qual é sua trajetória?

Quais propostas apresenta?

Cumpriu aquilo que prometeu anteriormente?

Respeita quem pensa ou acredita de maneira diferente?

Existe uma diferença profunda entre ter fé e usar a fé para conquistar voto.

Estado laico não significa Estado contra Deus

A discussão também exige esclarecer uma confusão recorrente.

O Brasil ser um Estado laico não significa que o Estado seja contrário à religião.

A Constituição protege a liberdade de consciência e de crença e assegura o livre exercício dos cultos religiosos.

A laicidade existe justamente para que católicos, evangélicos, espíritas, integrantes de religiões de matriz africana, judeus, muçulmanos, pessoas de outras crenças e também aqueles que não professam religião possam viver sob os mesmos direitos.

Portanto, um governante pode ter sua fé.

O que não pode fazer é transformar o Estado em instrumento de uma determinada religião.

A eleição de 2026 provavelmente terá muita religião

Os números ajudam a explicar por que candidatos fazem questão de aparecer em igrejas, participar de encontros religiosos e falar publicamente sobre Deus.

Existe um eleitorado enorme atento a esse aspecto.

Do ponto de vista eleitoral, ignorá-lo seria ignorar uma característica relevante da sociedade brasileira.

Mas existe também uma responsabilidade das próprias comunidades religiosas.

Igrejas e líderes espirituais possuem influência sobre milhões de pessoas. Essa influência não deveria substituir a consciência individual do eleitor.

Fé não deveria significar voto automático.

O eleitor pode exigir as duas coisas

Talvez seja desnecessário colocar fé e capacidade administrativa como elementos opostos.

Um eleitor religioso pode desejar alguém que compartilhe seus valores e, simultaneamente, exigir competência, honestidade, propostas consistentes e resultados.

Pode observar a espiritualidade do candidato e também verificar sua atuação pública.

Pode ouvir aquilo que ele diz dentro de uma igreja e comparar com aquilo que efetivamente faz quando exerce poder.

É justamente nessa comparação que a democracia amadurece.

Quando a campanha terminar, permanecerão os problemas reais

Depois das eleições, desaparecerão jingles, santinhos, slogans e boa parte das declarações produzidas para conquistar votos.

Continuarão existindo filas nos hospitais, escolas precisando funcionar, famílias esperando moradia, trabalhadores procurando emprego, problemas de segurança e cidadãos pagando impostos.

É diante desses problemas que um governante será verdadeiramente avaliado.

A pesquisa mostra que Deus importa para uma parcela enorme do eleitor brasileiro.

Isso merece respeito.

Mas talvez a maior demonstração pública dos valores que um político afirma carregar não esteja na quantidade de vezes que pronuncia o nome de Deus durante uma campanha.

Está na maneira como exerce o poder quando recebe a confiança da população.

Fé pode orientar escolhas. Resultado, caráter e responsabilidade precisam ajudar a confirmá-las.




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