Estudo investiga possível relação entre transfusão de sangue e Alzheimer, mas não há prova de transmissão

Revisão científica analisa se proteínas associadas à doença poderiam ser transferidas pelo sangue; pesquisadores reforçam que transfusões continuam consideradas seguras e essenciais

Metrópoles
Estudo investiga possível relação entre transfusão de sangue e Alzheimer, mas não há prova de transmissão Cientistas investigam se proteínas associadas ao Alzheimer poderiam ser transferidas pelo sangue. Até agora, não há comprovação de transmissão e transfusões seguem consideradas seguras.

Uma nova revisão científica reacendeu uma questão sensível na pesquisa sobre a doença de Alzheimer: seria possível transmitir, por meio do sangue, proteínas relacionadas ao desenvolvimento da doença?

Até o momento, a resposta é clara: não existe evidência suficiente para afirmar que o Alzheimer seja transmitido por transfusão sanguínea. Os pesquisadores identificaram sinais biológicos que justificam novas investigações, mas consideram prematuro estabelecer uma relação de causa e efeito.

O levantamento, divulgado em 22 de agosto e repercutido nesta terça-feira (25), concentra-se principalmente na beta-amiloide, proteína cujo acúmulo no cérebro está relacionado à doença de Alzheimer.

O que os cientistas estão investigando

A questão não é se o Alzheimer seria “contagioso” como uma gripe ou outra doença infecciosa.

A investigação procura entender algo muito mais específico: se determinadas proteínas anormais relacionadas a doenças neurodegenerativas poderiam, em circunstâncias médicas particulares, ser transferidas de um organismo para outro.

Pesquisas anteriores levantaram hipóteses semelhantes envolvendo a beta-amiloide.

Em 2015, cientistas encontraram alterações relacionadas à proteína em pacientes submetidos, décadas antes, a determinados procedimentos médicos. Outros estudos posteriormente investigaram se materiais biológicos ou instrumentos contaminados poderiam estar relacionados à transferência dessas proteínas.

Isso levou pesquisadores a ampliar a pergunta para as transfusões.

Estudo com dados da Suécia e Dinamarca chamou atenção

Uma das evidências examinadas pelos pesquisadores surgiu em um grande estudo publicado em 2023 com informações de pacientes da Suécia e Dinamarca.

O trabalho encontrou uma associação estatística envolvendo pessoas que receberam sangue de determinados doadores que posteriormente desenvolveram hemorragias cerebrais. Os receptores apresentaram maior ocorrência do mesmo problema anos depois.

Uma das hipóteses levantadas é que pequenas quantidades de beta-amiloide poderiam estar presentes no sangue antes mesmo da manifestação clínica de determinadas doenças.

Mas associação estatística não comprova transmissão.

Outros fatores podem explicar o resultado, razão pela qual novos estudos são necessários.

Alzheimer pode ser transmitido pelo sangue?

Não há evidência científica suficiente para fazer essa afirmação.

Essa é a informação mais importante para quem se depara com o assunto.

O neurologista John Collinge, um dos pesquisadores envolvidos na revisão, afirma que ainda não existem dados suficientes para calcular eventual risco.

Também faltam estudos de acompanhamento de longo prazo capazes de determinar se proteínas associadas ao Alzheimer podem efetivamente passar pelo sangue e, mais importante, se isso seria suficiente para provocar doença no receptor.

Portanto, transformar a hipótese científica em afirmações como “Alzheimer passa por transfusão” seria incorreto e poderia gerar medo desnecessário.

Transfusões continuam consideradas seguras

Os próprios pesquisadores fazem questão de destacar que transfusões sanguíneas permanecem procedimentos considerados seguros e essenciais.

A revisão não apresenta recomendação para interromper transfusões nem estabelece que pacientes devam recusá-las.

Em diversas situações clínicas, receber sangue é indispensável e pode salvar vidas.

O debate científico está voltado principalmente ao aprimoramento da segurança no futuro, caso novas evidências demonstrem algum mecanismo hoje ainda desconhecido.

Pesquisadores querem ampliar monitoramento

Entre as possibilidades discutidas estão estudos de acompanhamento de pessoas que recebem transfusões com frequência e o desenvolvimento de biomarcadores capazes de detectar precocemente proteínas relacionadas a doenças neurodegenerativas em doadores.

Esse tipo de investigação faz parte do processo normal de evolução da medicina.

Diversas práticas hoje incorporadas aos bancos de sangue surgiram justamente porque a ciência identificou riscos, desenvolveu testes e criou protocolos capazes de tornar as transfusões progressivamente mais seguras.

No caso do Alzheimer, entretanto, a ciência ainda está em uma etapa muito anterior: investigando se o risco existe de fato.

Cautela é fundamental ao divulgar o estudo

A maneira como essa pesquisa é apresentada faz diferença.

A expressão “transmissão do Alzheimer pelo sangue” naturalmente chama atenção, mas pode transmitir uma certeza que os próprios pesquisadores ainda não possuem.

O que existe atualmente é uma hipótese científica sendo investigada, baseada no comportamento de proteínas relacionadas à doença e em evidências que ainda admitem outras explicações.

Até que pesquisas mais robustas forneçam respostas, a orientação científica permanece: não há comprovação de transmissão do Alzheimer por transfusão e os benefícios conhecidos das transfusões continuam amplamente estabelecidos




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