PIB desacelera e juros altos pressionam consumo das famílias no Brasil

Economia brasileira cresce 0,5% no segundo trimestre de 2026, mas analistas apontam efeitos da política monetária restritiva sobre crédito, consumo e ritmo da atividade

Metrópoles
PIB desacelera e juros altos pressionam consumo das famílias no Brasil PIB brasileiro cresce 0,5% no segundo trimestre, enquanto juros elevados pressionam consumo, crédito e ritmo da atividade econômica.

A economia brasileira continuou crescendo no segundo trimestre de 2026, mas em velocidade menor. O Produto Interno Bruto (PIB) avançou 0,5% em relação aos três primeiros meses do ano, resultado ligeiramente superior à expectativa de 0,4% do mercado. Na comparação com o mesmo período de 2025, o crescimento foi de 2%.

Apesar do resultado positivo, os números divulgados nesta terça-feira (1º) reforçam a percepção de desaceleração da atividade econômica. No acumulado de quatro trimestres, o crescimento perdeu força e chegou a 1,9%. Entre economistas ouvidos pelo Metrópoles, um dos principais fatores por trás desse movimento é a manutenção dos juros em níveis elevados.

A avaliação encontra respaldo no próprio debate conduzido pelo Banco Central. Em relatório divulgado em junho, a autoridade monetária apontou um ambiente doméstico no qual inflação e expectativas permaneciam acima da meta, justificando uma política monetária restritiva.

Consumo das famílias acende sinal de atenção

Um dos dados mais relevantes está no comportamento das famílias. Enquanto o agronegócio avançou 2,8% e os investimentos registraram crescimento de 1,2%, o consumo das famílias caiu 0,4% na comparação trimestral.

É justamente nesse componente que o impacto dos juros pode ser percebido de maneira mais direta.

Taxas elevadas tendem a encarecer financiamentos, empréstimos e outras modalidades de crédito. Com prestações mais caras e famílias endividadas, parte do consumo é adiada ou reduzida. Empresas também enfrentam custos maiores para financiar investimentos.

O economista Pablo Spyer, da Associação Nacional das Corretoras (Ancord), avaliou que a queda do consumo é um indicativo de que os juros elevados continuam pesando sobre a demanda. Para ele, apesar de o PIB ter superado ligeiramente as expectativas, a economia apresenta perda de ritmo.

Agro ajuda a sustentar resultado

O desempenho do agronegócio ajudou a impedir uma desaceleração mais acentuada no trimestre. O problema é que economistas não esperam necessariamente a mesma contribuição nos próximos meses.

André Valério, economista do Banco Inter, projeta variações mais modestas do PIB nos dois próximos trimestres, considerando as condições financeiras enfrentadas pelos consumidores e a redução da contribuição positiva do agronegócio após o período sazonal de colheita. Sua projeção é de crescimento de 1,8% do PIB em 2026.

As previsões para o ano, entretanto, não são consensuais. Em agosto, o Focus indicava expectativa de aproximadamente 1,98%, enquanto outras instituições apresentavam projeções diferentes.

Juros altos: freio necessário ou custo excessivo?

A discussão econômica vai além da constatação de que juros elevados reduzem a atividade.

De um lado, setores produtivos e economistas destacam os efeitos negativos sobre consumo, crédito, investimentos e crescimento. A Confederação Nacional da Indústria (CNI), por exemplo, já havia apontado que juros elevados estavam limitando o desempenho econômico e pressionando especialmente a indústria de transformação.

Do outro, o Banco Central sustenta que a política monetária tem como objetivo principal controlar a inflação. Em agosto, o presidente da instituição, Gabriel Galípolo, afirmou que juros em patamar contracionista buscam reequilibrar oferta e demanda, e não estimular diretamente o crescimento econômico.

Essa distinção é fundamental: juros altos podem contribuir para a desaceleração do PIB justamente porque esse é um dos canais utilizados pela política monetária para reduzir a pressão da demanda sobre os preços.

O desafio está na calibragem. Manter juros restritivos por tempo excessivo pode ampliar os custos sobre famílias e empresas. Reduzi-los antes de uma melhora consistente das expectativas de inflação, por outro lado, pode dificultar a convergência dos preços para a meta.

Próximos dados serão decisivos

Para Vitor Kayo, economista da Nomad, o resultado mostra uma desaceleração gradual, e não uma interrupção brusca do crescimento. O especialista relaciona o movimento aos efeitos defasados dos juros elevados, à redução do impulso fiscal e ao endividamento das famílias.

A partir de agora, inflação, emprego, consumo, crédito e novos indicadores de atividade deverão ganhar ainda mais peso nas decisões sobre a trajetória da Selic.

O PIB do segundo trimestre deixa, portanto, uma fotografia ambígua: o Brasil continua crescendo, mas o consumo perdeu força e a economia começa a sentir com maior intensidade o custo de uma política monetária ainda restritiva.




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