Quando o medo decide por elas, a liberdade das mulheres já foi violada

Se 98% das brasileiras precisam mudar hábitos para evitar a violência, o problema não é uma simples sensação de insegurança, mas a negação cotidiana do direito à cidade


Quando o medo decide por elas, a liberdade das mulheres já foi violada Quando o medo determina caminhos, horários e oportunidades, a liberdade das mulheres existe apenas no papel.

Uma mulher muda o caminho de casa, evita sair à noite, guarda o celular antes de chegar ao ponto de ônibus e compartilha a localização com alguém de confiança. Antes de aceitar um emprego ou começar um curso, calcula o horário, o transporte disponível e os riscos do trajeto.

Essas decisões podem parecer simples medidas de precaução. Quando são repetidas diariamente por milhões de brasileiras, porém, revelam uma realidade mais grave: a violência passou a administrar parte da vida das mulheres.

A pesquisa “Segurança das Mulheres: Percepção da Sociedade Brasileira sobre Violência”, realizada pelos institutos Patrícia Galvão e Locomotiva, mostra que 98% das mulheres consultadas adotam alguma estratégia para diminuir o risco de sofrer violência. O dado mais perturbador não está apenas no tamanho do percentual, mas no que ele representa. Praticamente todas aprenderam que circular livremente exige planejamento, vigilância e renúncia.

Não estamos falando de medo abstrato. Segundo o levantamento, 78% afirmam já ter sofrido pelo menos um tipo de violência. As mudanças de comportamento, portanto, não nascem de uma suposta fragilidade feminina, mas de experiências concretas, relatos próximos e da percepção de que a proteção oferecida pelo poder público continua insuficiente.

A falsa liberdade de escolher

Costuma-se afirmar que as mulheres conquistaram espaço na educação, no mercado de trabalho e na vida pública. Isso é verdade, mas a liberdade não pode ser medida apenas pela existência formal de um direito.

Uma mulher pode ter o direito de estudar, mas deixar de frequentar um curso noturno por medo do caminho de volta. Pode estar qualificada para um emprego, mas recusar a vaga porque o deslocamento é inseguro. Pode ter acesso aos espaços de lazer, mas evitar determinados lugares e horários para diminuir sua exposição.

Nesse cenário, a escolha existe apenas no papel.

O levantamento mostra que 45% das mulheres já abriram mão de uma oportunidade de trabalho ou estudo por medo da violência. Isso significa que a insegurança também afeta a renda, a autonomia financeira, a formação profissional e a possibilidade de ascensão social.

A violência, portanto, não produz somente vítimas diretas. Ela limita projetos de vida e aprofunda desigualdades.

As cidades não foram planejadas para elas

Pontos de ônibus escuros, transporte público precário, ruas desertas, calçadas inadequadas e ausência de policiamento criam um ambiente no qual a mulher precisa assumir individualmente a responsabilidade pela própria proteção.

É ela quem deve mudar o trajeto, pagar mais caro por um transporte por aplicativo, pedir companhia, informar onde está e evitar horários considerados perigosos. Enquanto isso, falhas estruturais são naturalizadas como se fossem inevitáveis.

Segundo a pesquisa, 42% das mulheres não se sentem nada seguras em pontos de ônibus e estações. Nos transportes públicos, o percentual chega a 33%. Em bares, festas e casas noturnas, 41% relatam ausência completa de segurança.

Esses números deveriam orientar o planejamento urbano e as prioridades orçamentárias. Iluminação pública, transporte confiável, fiscalização, acolhimento às vítimas e canais de denúncia não são favores nem políticas secundárias. São condições indispensáveis para que as mulheres exerçam plenamente o direito à cidade.

O poder público não pode transferir sua responsabilidade

As mulheres desenvolveram mecanismos de sobrevivência, mas não deveriam precisar organizar a vida em torno do medo. Aplicativos de localização, alarmes pessoais e mensagens avisando “cheguei” podem ajudar em situações específicas, porém não substituem políticas públicas eficientes.

Também não é aceitável que a prevenção seja resumida a orientações sobre como a mulher deve se comportar. Quando o discurso se limita a recomendar que ela não saia sozinha, não use o celular, não frequente certos lugares ou não volte tarde, a sociedade acaba restringindo a vítima em vez de enfrentar a violência.

Outro resultado do levantamento merece atenção: 74% das entrevistadas avaliam negativamente a atuação do Legislativo no enfrentamento do problema. Governos estaduais aparecem com 72% de avaliação negativa, enquanto Judiciário e governo federal registram 71%.

Não se trata, portanto, apenas de criar novas leis. É necessário garantir que a legislação seja aplicada, que as denúncias recebam respostas rápidas e que os serviços funcionem de maneira integrada.

Segurança das mulheres também é pauta eleitoral

Para 78% das participantes, propostas voltadas ao combate à violência nas ruas e no transporte público deverão influenciar o voto. O percentual mostra que segurança para mulheres não pode continuar aparecendo nos programas eleitorais apenas como uma promessa genérica.

Candidatos precisam explicar como pretendem ampliar delegacias especializadas, melhorar a iluminação, qualificar o transporte, fortalecer a rede de acolhimento, garantir medidas protetivas e prevenir a violência doméstica.

Também devem apresentar metas, orçamento e prazos. Sem isso, compromissos públicos correm o risco de desaparecer logo após as eleições.

Quando 98% das mulheres alteram a própria rotina por medo, não estamos diante de milhões de escolhas individuais. Estamos diante de uma liberdade coletiva comprometida.

A verdadeira mudança acontecerá quando uma mulher puder escolher um emprego, estudar à noite, caminhar até sua casa ou frequentar um espaço de lazer sem precisar calcular previamente o risco de ser agredida.

Até lá, toda vez que uma mulher desistir de um caminho, de um curso, de uma vaga ou de uma experiência por medo, a violência terá vencido sem precisar aparecer.




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