Adasa aponta cenário de segurança hídrica no DF, mas alerta: “Água é um bem finito”
Em entrevista ao Vozes da Comunidade, Raimundo Ribeiro destacou níveis elevados dos reservatórios em plena estiagem, defendeu uso racional da água, falou sobre as lições da crise de 2017 e propôs ampliar a captação e o aproveitamento das chuvas
Presidente da Adasa, Raimundo Ribeiro, aponta níveis elevados dos reservatórios, mas alerta para uso racional da água durante a estiagem no DF. O Distrito Federal atravessa o período crítico de estiagem em uma situação de “relativa tranquilidade” em relação à segurança hídrica, mas os bons níveis dos reservatórios não devem ser interpretados como motivo para abandonar o consumo consciente. A avaliação foi feita pelo diretor-presidente da Agência Reguladora de Águas, Energia e Saneamento Básico do Distrito Federal (Adasa), Raimundo Ribeiro, durante entrevista ao programa Vozes da Comunidade, apresentado pelo jornalista Toni Duarte.
Segundo Ribeiro, os principais reservatórios utilizados no abastecimento da capital apresentam condições mais favoráveis do que as observadas no mesmo período do ano anterior. Na entrevista, ele informou que o Descoberto está com cerca de 80% do volume útil, enquanto Santa Maria registra 92,2%.
Os indicadores, segundo o presidente da agência, mantêm o sistema em uma condição classificada como estado hidrológico verde.
“A situação nossa aqui é de relativa tranquilidade. E por que relativa? Porque, se nós formos comparar este ano com o ano passado, os nossos reservatórios estão com uma carga muito maior”, afirmou.
A ressalva feita por Ribeiro é importante. Setembro está inserido no período de estiagem do Distrito Federal e, mesmo diante de reservatórios em situação confortável, a gestão hídrica precisa considerar o comportamento das chuvas, das vazões, do consumo e da disponibilidade de água nos meses seguintes.
Abastecimento alcança 99% da população, afirma presidente
Outro número apresentado durante a entrevista foi a cobertura do sistema de abastecimento.
De acordo com Ribeiro, aproximadamente 99% da população do Distrito Federal possui acesso ao abastecimento de água. O presidente ressaltou que o resultado também envolve o trabalho desenvolvido pela Caesb.
Na comparação apresentada por ele, o cenário atual é significativamente melhor do que o registrado no mesmo período do ano anterior.
Segundo Ribeiro, o nível do Descoberto estava aproximadamente oito pontos percentuais abaixo do atual, enquanto a diferença em Santa Maria chegava a cerca de 21 pontos percentuais.
Mesmo diante dessa vantagem, ele rejeitou a ideia de que a situação permita despreocupação.
“Isso nos dá uma certa tranquilidade, mas isso não faz com que a gente deixe de se preocupar, porque a água é um bem finito.”
Consumo racional deve continuar mesmo com reservatórios elevados
Para o presidente da Adasa, o desafio não deve ser resumido simplesmente à expressão “economizar água”.
Ribeiro defendeu uma mudança permanente na relação da população com os recursos hídricos, baseada no uso racional da água e na compreensão de que um mesmo recurso precisa atender diferentes necessidades.
Isso inclui abastecimento humano, atividades econômicas, produção rural e preservação ambiental.
Na avaliação apresentada durante o Vozes da Comunidade, a segurança hídrica depende tanto de infraestrutura e planejamento público quanto da maneira como a população utiliza a água diariamente.
O presidente também ressaltou que a dinâmica hidrológica não obedece simplesmente à mudança dos meses no calendário. Por isso, os indicadores precisam continuar sendo acompanhados durante todo o período seco.
Crise hídrica de 2017 ainda serve de alerta
A entrevista também retomou um dos períodos mais difíceis da história recente do abastecimento no Distrito Federal.
Questionado por Toni Duarte sobre as lições deixadas pela crise hídrica enfrentada entre 2016 e 2018, Ribeiro afirmou que o episódio demonstrou a importância de antecipar decisões e manter planejamento de curto, médio e longo prazo.
O DF chegou a enfrentar racionamento de água em 2017, situação que marcou a população e colocou a gestão dos recursos hídricos no centro do debate público.
Ribeiro afirmou que, quando chegou à direção da Adasa, em 2019, encontrou uma equipe técnica que já trabalhava para minimizar os efeitos deixados pela crise e fortalecer o planejamento necessário para impedir a repetição daquele cenário.
“Nós entramos lá na Adasa em 2019, já pegamos um momento pós-crise. Temos um quadro altamente competente que começou, que trabalhou para minimizar aquele desgaste da crise hídrica e passou a fazer um planejamento muito mais a curto, médio e longo prazo”, declarou.
Segundo ele, o objetivo passou a ser criar condições para que uma situação extrema de racionamento não volte a ocorrer.
Ribeiro critica gestão Rollemberg pela crise
Ao tratar do episódio de 2017, Raimundo Ribeiro também fez críticas diretas ao governo do então governador Rodrigo Rollemberg.
Na avaliação pessoal do presidente da Adasa, o racionamento poderia ter sido evitado caso medidas preventivas tivessem sido tomadas no momento adequado.
“Aquilo podia ter sido evitado. Foi avisado que haveria uma diminuição, foi avisado que algumas medidas precisavam ser adotadas. Não foram adotadas em tempo hábil e aí nós tivemos que fazer racionamento”, afirmou.
Durante a entrevista, Ribeiro chegou a classificar a administração Rollemberg como “preguiçosa”.
A declaração representa a avaliação do atual presidente da Adasa sobre a condução da crise naquele período e não uma conclusão técnica independente sobre a responsabilidade pelo racionamento.
“Brasília é o berço das águas”
Ribeiro também chamou atenção para a posição geográfica do Distrito Federal na formação de importantes regiões hidrográficas brasileiras.
Ao defender uma gestão permanente dos recursos disponíveis, ele classificou Brasília como “berço das águas” e argumentou que essa característica aumenta a responsabilidade do poder público e da sociedade com a preservação.
Para o presidente da Adasa, planejamento e capacidade técnica são fundamentais para impedir que períodos prolongados de estiagem provoquem novamente restrições severas ao abastecimento.
“Se você trabalhar com seriedade, comprometido com o objetivo maior do serviço público, que é servir ao público, então esse tipo de situação não ocorrerá mais”, disse.
Presidente da Adasa propõe nova relação com a água da chuva
Um dos pontos de maior destaque da entrevista foi a defesa do aproveitamento da água da chuva.
Ribeiro argumentou que as cidades precisam mudar a maneira como recebem as precipitações. Em vez de enxergar a chuva somente como causadora de transtornos, o poder público deveria ampliar estratégias para captar e utilizar esse recurso.
O presidente da Adasa resumiu o processo em quatro ações: receber, captar, armazenar e tratar.
“O que nós precisamos é saber receber muito bem a chuva. A gente tem que receber, captar, armazenar, tratar, para poder distribuir. E olha que é o maior fornecedor e de graça.”
Para ilustrar a mudança de percepção, Ribeiro relembrou a infância no Piauí, quando a chegada da chuva era motivo de comemoração.
Segundo ele, atualmente é comum que a população associe chuvas intensas a alagamentos, deslizamentos e outros problemas urbanos.
Na avaliação do dirigente, parte dessa relação negativa está ligada justamente à falta de preparação das cidades para receber grandes volumes de água.
Chuva precisa integrar planejamento das cidades
A proposta apresentada por Ribeiro amplia a discussão sobre segurança hídrica.
Não basta, segundo a visão defendida durante a entrevista, administrar somente a água que já está armazenada nos reservatórios. É necessário pensar também em como aproveitar melhor aquela que chega durante o período chuvoso.
Isso envolve infraestrutura de drenagem, retenção, armazenamento, proteção ambiental e outras soluções capazes de reduzir perdas e permitir diferentes formas de aproveitamento.
A estratégia também pode contribuir para diminuir a pressão sobre mananciais em determinados usos, desde que sejam respeitadas as exigências técnicas e sanitárias correspondentes.
Ribeiro critica falta de interesse político por obras subterrâneas
A discussão sobre infraestrutura levou o presidente da Adasa a fazer outra avaliação sobre a gestão pública.
Ribeiro afirmou que determinadas obras essenciais recebem menor atenção porque grande parte dos investimentos relacionados à água, drenagem e saneamento fica “no subterrâneo” e, consequentemente, possui pouca visibilidade eleitoral.
Na avaliação dele, essa lógica prejudica investimentos estruturantes que podem produzir benefícios durante décadas.
“Muitas vezes as pessoas não se sentem motivadas a apresentar projetos porque o investimento quase sempre é no subterrâneo. E no subterrâneo não aparece e não se traduz em votos.”
Ribeiro classificou essa visão como “egoísta” e “equivocada”.
Para ele, a prioridade de um gestor público deve estar na entrega de resultados, e não na escolha de projetos baseada exclusivamente na repercussão eleitoral.
“Ninguém foi eleito para ser reeleito. A pessoa é eleita para fazer um trabalho. Feito o trabalho, naturalmente ela é reeleita.”
Segurança hídrica depende de planejamento permanente
As declarações de Raimundo Ribeiro ao Vozes da Comunidade mostram que, apesar dos indicadores favoráveis apresentados para setembro, a estratégia da Adasa é evitar que os níveis atuais produzam uma falsa sensação de segurança.
O cenário descrito pelo presidente combina reservatórios em condições superiores às observadas no período anterior, cobertura de abastecimento próxima da universalização e estado hidrológico verde, mas também a necessidade de manter fiscalização, planejamento e consumo racional.
A experiência do racionamento de 2017 aparece, nesse contexto, como referência para uma política que pretende antecipar problemas em vez de reagir apenas quando os reservatórios atingirem níveis críticos.
Para Ribeiro, o próximo avanço precisa incluir também uma mudança estrutural na relação do Distrito Federal com as chuvas: transformar parte da água que atualmente escoa e provoca transtornos em um recurso que possa ser captado, armazenado e aproveitado.
A mensagem deixada pelo presidente da Adasa durante a entrevista foi direta: o cenário atual é confortável, mas segurança hídrica exige planejamento contínuo porque a água permanece sendo um recurso finito.




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