Arruda vende experiência como solução, mas seu próprio passado enfraquece o discurso de retorno ao Buriti
Ex-governador tenta transformar antigas realizações em argumento eleitoral e apresenta a experiência como diferencial, mas a candidatura chega a 2026 cercada por questionamentos jurídicos e pelo peso de uma trajetória política que não pode ser reduzida às
Arruda aposta na experiência para retornar ao Buriti, mas sua trajetória política e os questionamentos que acompanham a candidatura também entram no julgamento público. José Roberto Arruda (PSD) quer voltar ao comando do Distrito Federal apresentando uma mensagem relativamente simples ao eleitor: ele já governou Brasília, conhece a máquina pública e sabe como fazer.
Depois do debate promovido pelo Correio Braziliense e pela TV Brasília nesta terça-feira (1º), Arruda voltou a defender justamente sua experiência administrativa como argumento para retornar ao Palácio do Buriti. Também fez críticas duras à administração atual e afirmou que Brasília atravessa o que considera o pior momento de sua história.
É uma estratégia compreensível eleitoralmente. O problema é que experiência política não vem acompanhada apenas das realizações que um candidato escolhe colocar na propaganda.
Experiência também significa carregar responsabilidade pelo próprio histórico.
E esse talvez seja o maior problema da candidatura de Arruda.
Não existe currículo pela metade
Arruda frequentemente relembra obras realizadas durante sua administração e tem utilizado esse legado durante a campanha. Em agendas recentes por regiões como Planaltina, Arapoanga e Sobradinho, voltou a associar propostas atuais às realizações de seu período no governo.
Não existe problema em reivindicar aquilo que considera positivo de sua administração.
O problema aparece quando uma eleição começa a ser apresentada como se o currículo político pudesse ser dividido em duas partes, exibindo apenas aquela que interessa ao candidato.
Quem pede ao eleitor reconhecimento pela experiência precisa aceitar também o escrutínio sobre toda a experiência.
Arruda não é um estreante tentando apresentar-se à população. É um político com uma trajetória extensa e conhecida no Distrito Federal. Portanto, seu passado administrativo e político não é uma questão lateral da campanha.
É parte central dela.
A situação jurídica continua acompanhando a candidatura
Existe ainda uma questão objetiva que diferencia a candidatura de Arruda de boa parte dos adversários.
O registro de sua candidatura enfrenta contestação na Justiça Eleitoral. O Ministério Público Eleitoral está entre aqueles que apresentaram questionamentos relacionados ao registro, e a situação ainda depende da análise da Justiça Eleitoral.
Isso precisa ser tratado com precisão.
Uma impugnação não equivale ao indeferimento definitivo de uma candidatura, assim como questionamentos judiciais não autorizam concluir antecipadamente qual será a decisão final da Justiça Eleitoral.
Mas politicamente a situação importa.
Um candidato ao governo deveria chegar à campanha discutindo prioritariamente aquilo que pretende fazer nos próximos quatro anos. Quando parte importante da discussão envolve saber se o próprio candidato conseguirá superar disputas jurídicas relacionadas ao registro, existe um ruído evidente para qualquer projeto que se apresente como alternativa de estabilidade.
Debate mostrou que o passado continua presente
O confronto entre Arruda e Celina Leão (PP) deixou essa realidade especialmente clara.
Arruda questionou a governadora sobre saúde, população em situação de rua e BRB. Celina respondeu trazendo diretamente o histórico político e judicial do adversário para o centro da discussão.
A troca demonstrou algo importante: Arruda pode querer conduzir a eleição para uma comparação de obras, mas seus adversários dificilmente permitirão que a disputa permaneça apenas nesse terreno.
E não se trata simplesmente de estratégia eleitoral.
Quando alguém que já comandou o Distrito Federal pretende retornar ao mesmo cargo, analisar o que aconteceu durante sua passagem pelo poder é absolutamente legítimo.
O eleitor tem direito de comparar hospitais, escolas, transporte, infraestrutura e contas públicas. Mas também tem direito de considerar crises políticas, decisões administrativas, controvérsias e consequências institucionais.
Tudo pertence ao mesmo currículo.
Experiência não é sinônimo automático de competência
Existe outro argumento da campanha que merece contestação.
Ter ocupado determinado cargo anteriormente não significa, automaticamente, estar mais preparado para ocupá-lo novamente.
Experiência pode representar conhecimento administrativo. Pode também revelar erros que não deveriam ser repetidos.
Por isso, a pergunta relevante não é simplesmente se Arruda sabe governar.
A questão é qual aprendizado sua trajetória oferece ao Distrito Federal e por que seu retorno representaria uma solução diferente daquela já conhecida pelos brasilienses.
Dizer que já fez não basta.
Uma candidatura de retorno precisa explicar por que deveria fazer novamente.
Críticas ao presente não apagam responsabilidades do passado
Arruda tem adotado uma postura dura contra a administração atual. Depois do debate, afirmou que o governo seria eficiente em propaganda, mas deficiente na solução dos problemas, além de fazer críticas às condições da saúde e de outros serviços públicos.
Fiscalizar e criticar quem governa é legítimo.
Mas existe uma diferença quando a crítica parte de alguém que também já ocupou aquela cadeira.
Nesse caso, cada diagnóstico sobre os problemas de Brasília inevitavelmente produz uma segunda pergunta: como esse mesmo problema foi enfrentado quando o crítico teve a oportunidade de governar?
A campanha de Arruda não pode exigir memória para as realizações e esquecimento para aquilo que lhe causa desgaste.
Ou o passado vale como critério de avaliação, ou não vale.
Brasília precisa discutir futuro, não viver de nostalgia
Talvez esse seja o ponto mais frágil da tentativa de retorno de Arruda.
Brasília de 2026 não é Brasília de 2007.
A população aumentou, as regiões administrativas mudaram, a demanda sobre hospitais cresceu, a mobilidade se transformou, a tecnologia alterou a prestação de serviços e novos desafios econômicos surgiram.
Uma campanha excessivamente baseada em “eu fiz” corre o risco de oferecer nostalgia quando o eleitor precisa de planejamento.
Obras realizadas no passado podem compor o currículo de um candidato. Não deveriam substituir um projeto consistente para o futuro.
Arruda precisa responder ao próprio passado
José Roberto Arruda tem todo o direito de defender sua candidatura dentro das regras eleitorais e apresentar ao eleitor aquilo que considera ter realizado pelo Distrito Federal.
Seus adversários têm exatamente o mesmo direito de confrontá-lo com sua trajetória completa.
É aí que sua tentativa de retorno encontra sua maior fragilidade.
Arruda quer transformar experiência em vantagem eleitoral. Mas experiência é uma palavra perigosa para quem possui um passado político tão controverso.
Porque, quando um candidato pede para ser julgado pelo que já fez, não pode escolher quais capítulos o eleitor está autorizado a lembrar.
No fim, talvez a maior adversária da candidatura de Arruda não seja Celina Leão, nem qualquer outro nome presente na disputa pelo Buriti.
É a própria história política que ele precisa convencer Brasília a revisitar.
Este texto é uma coluna de opinião baseada em fatos públicos. Questionamentos ou impugnações eleitorais mencionados não representam decisão definitiva sobre o registro da candidatura.




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